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Correio da Manhã

Cultura
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"Cheguei a temer pela segurança da Sónia"

Os The Gift voltam esta quinta-feira (9) à Aula Magna vinte anos depois de um concerto que até teve invasão de palco
Miguel Azevedo 8 de Maio de 2019 às 20:33
FOTO: D.R.

A 9 de Junho de 1999, os The Gift, ainda em início de carreira, davam, em Lisboa, um dos mais emblemáticos e importantes concertos do seu percurso. Depois dessa noite nada voltou a ser igual para Miguel Ribeiro, Sónia Tavares, John e Nuno Gonçalves. A banda de Alcobaça, hoje com uma popularidade e reconhecimento incontornáveis, regressa agora à Aula Magna para apresentar o novo disco 'Verão'. Nuno Gonçalves fala das novas canções e recorda a noite que acabou em lágrimas e mudou a vida o grupo para sempre.

Como é que está a correr este verão fora de época para os The Gift?

Tem corrido muito bem. Estamos muito contentes com o resultado do disco em palco. A reação das pessoas não podia ser melhor. Estamos mais do que preparados para encarar o verão real que aí vem. 

Neste disco 'Verão' nota-se talvez mais a presença de Brian Eno do que no trabalho anterior, sobretudo no que diz respeito às ambiências. Como é que foi esta nova etapa com o produtor britânico?
As ambiências já se faziam notar muito, por exemplo, no ‘Primavera’. Aquilo que fizemos neste disco foi dar continuidade a isso, com música mais introspetiva e mais virada para dentro. Curiosamente, em termos de trabalho, até estivemos agora menos tempo com o Brian Eno. Com o disco 'Altar', estivemos dois anos a trabalhar juntos. Agora foram apenas três meses. Mas acima de tudo queriamos que este disco fosse muito impulsivo. Não era nossa ideia andar a trabalhá-lo muito tempo.

Depois de um disco dançável como ‘Altar’, os The Gift voltam a trocar as voltas a quem gosta de os ouvir. Que saudável esquizofrenia é esta em que vivem os The Gift?
(risos) É apenas a nossa necessidade artística a falar mais alto. Nós não fazemos nada que não nos motive. Nós gostamos de estar nos concertos a tocar de forma quase solene o ‘Primavera’ ou o ‘Verão’, mas também gostamos que as pessoas acabem a dançar o ‘Big Fish’. E acho que existe sim uma esquizofrenia saudável na maneira de compormos as nossas músicas e gerirmos a nossa carreira. Não nos interessa repetir caminhos e acho que estamos numa fase em que somos cada vez mais sinceros com a música que fazemos.

Como é que correu então esse processo de composição para este disco?
Eu decidi começar a fazer este disco em Outubro do ano passado quando comecei a ouvir as coisas que tinha gravadas no telefone. Foi quando percebi que tinha várias composições para fazer um disco muito semelhante ao que tínhamos feito na ‘Primavera’ com piano e voz. Só que depois o disco conduziu-nos para outros sítios.

Conduziu-vos para onde?
Conduziu-nos, por exemplo, para uma orquestra em Londres ou para um produtor de hip-hop (Francisco Reis). Este disco levou-nos para caminhos que não estávamos à espera. O que era para ser apenas um disco de piano e voz acabou por se tornar num disco maior da carreira dos The Gift. Este disco é cheio e intenso e deu muito trabalho a fazer. Só mesmo na última semana é que o conseguimos vencer (risos). Houve uma altura em que até estivemos um pouco perdidos, sem perceber muito bem para onde ele nos estava a levar. Fizemos coisas que nunca tínhamos feito.

Por outras palavras nem vocês sabem o que esperar de vocês próprios?
Sim, acho que essa é a grande chave para termos quase 25 anos de carreira. E depois temos a certeza que o público fiel aos The Gift não se importará de ouvir algo menos óbvio. Isso dá-nos uma tremenda segurança. O publico dos The Gift gosta de ser desafiado.

Os The Gift regressam agora à Aula Magna, vinte anos depois de um dos mais emblemáticos concertos da carreira onde até houve uma invasão de palco. O que é que mais se recordam daquela noite?
Foi das noites mais importantes das carreira dos The Gift. A título pessoal, lembro-me do meu encontro com o meu pai depois do concerto em que nos abraçámos a chorar. E o curioso, é que eu e o meu pai nem tínhamos esse tipo de relação (risos). Do ponto de vista profissional acho que foi o início de tudo. Nós já sabíamos que os The Gift eram importantes para as pessoas, sabíamos que esgotávamos as salas por onde passávamos, mas faltava que a indústria e os media de Lisboa nos dessem esse carimbo de confirmação. E no final dá-se aquela invasão de palco à qual ninguém ficou indiferente. Recordo-me que nessa mesma noite, o Luis Montez marcou logo connosco, os festivais de Verão.

Nunca chegou a temer que a coisa desse para o torto com aquela invasão de palco?
(Risos). Sim, porque nós nem tínhamos contratado seguranças. De repente eu vi ali muita gente num sítio muito pequeno e temi até pela segurança da Sónia. Estava tudo louco aos saltos à volta dela. Há uma história curiosa. Durante aquela invasão roubaram-nos as teclas do xilofone. Uns anos mais tarde, uma miúda no Lux veio ter comigo a dizer-me que tinha sido ela. Depois lá me devolveu as teclas. Aquele xilofone tinha um valor estimativo grande porque era de uma escola de música de Alcobaça.

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