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Correio da Manhã

Cultura
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Jay Moreira, um músico cabo-verdiano em Lisboa com uma voz sobre o racismo

Artista tem desenvolvido a carreira em Portugal e acredita "num amor próximo entre África e Portugal".
Tiago Sousa Dias 15 de Fevereiro de 2019 às 18:32
O músico cabo-verdiano Jay Moreira
O músico cabo-verdiano Jay Moreira
O músico cabo-verdiano Jay Moreira
O músico cabo-verdiano Jay Moreira
O músico cabo-verdiano Jay Moreira
O músico cabo-verdiano Jay Moreira

Jay Moreira veio muito novo para Portugal. Começou na música em 1998 e lançou o primeiro álbum a solo ‘So Mi’ (Só eu) em 2003. Continuou a desenvolver a sua parte artística e, em 2006, foi para a Noruega onde formou uma banda com músicos noruegueses. Foi com esse grupo que voltou a Cabo Verde, a sua terra natal. Fez uma digressão por algumas ilhas do arquipélago, o que lhe deu uma boa ‘bagagem’. Em 2011 voltou para Portugal para dar continuidade ao seu trabalho, que passa não só por fazer dançar e cantar, mas também por mostrar como uma boa letra pode ajudar os jovens e não só.

Escreveu o tema ‘Orgulho’ com base no chamado ‘Arrastão’ da Praia de Carcavelos. Na altura, estava a escrever e a compor, e esse acontecimento incentivou-o a falar sobre o orgulho. Os seus pais sempre o ensinaram a andar com a cabeça levantada. Não ter vergonha de nada, fazendo coisas boas. Ver nas notícias jovens africanos aparecerem de forma negativa não o deixa indiferente. Com esta música tentou alertar a juventude que foi aconselhada pelos pais a não entrar nesse tipo de situações.

Chegou a Portugal com quatro anos, mas nunca se esqueceu da avó, do seu crioulo que sempre falou em casa. Lembra-se de dizer na escola "Então, bu sta bom?" e a professora aplaudir por ser uma língua nova. De repente, o crioulo passou a ser uma língua banal. "Toda a gente que quer ser má já quer falar crioulo."

Jay viveu num barracão, sem água nem luz. Sendo da segunda geração em Portugal, tinha o sonho de ajudar os pais a saírem da barraca. A família teve direito a uma casa num prédio de habitação social. "Uma casa com água e luz, com varanda, uma casa normal."

Quando vê as notícias sobre o Bairro da Jamaica fica admirado por ainda existirem, em 2019, pessoas a viver em prédios com buracos nos tijolos. Pede que o bairro deixe de existir, e que se dê condições às pessoas, como as condições que lhe foram dadas a ele.

O que viu foi o que alguém filmou, os polícias a baterem nas pessoas. Jay acredita que não se pode dizer que haja racismo da polícia quando se vê os acontecimentos a uma distância tão grande. "Eu já olhei no olho do racista. Já senti o racista à minha frente. Como é que alguém que filma de longe pode sentir o racismo do polícia?"

Entende que a polícia podia estar "nervosa e alterada". Salienta que viu pessoas fardadas a bater violentamente em gente mais idosa, e não entende como se pode fazer isso. Mas o que viu foi do seu computador. Não viu o olhar de quem lá estava.

Desde os 16 anos que sente que existem pessoas racistas, pessoas com ódio. Já passou pela experiência alguma vezes. "Já tive um episódio em que estava a andar na noite sozinho e vieram oito skinheads diretos a mim, e pensei em tentar falar. Mas dois segundos depois pensei, ele não vai querer ouvir. Ele não vai querer saber se és uma boa pessoa ou não. Ele vai-te bater. E fugi, safei-me deles. Quando uma pessoa é racista, já não consegue mudar. Eu acho que nem consegue vestir uma farda. Devemos lutar contra o racismo, mas contra os verdadeiros racistas. Há uns dias, num programa de televisão, foi convidado um racista, que diz que é mesmo racista, que está todo tatuado e diz que odeia pessoas de outras raças. Mas houve protesto, eu gostei. Mas não vamos agora chamar o povo português de racista."

O cantor apela a que os jovens africanos tenham mais consciência do que andam a fazer. Do que andam a mostrar. Que se lembrem dos seus sonhos, ser jogador de futebol, ser cantor, ser trabalhador ou ser padeiro, e que voltem a ser esse tipo de pessoas, que não desrespeitem as regras, coisas simples como andar de comboio e não sentir vergonha de o fazer.

"Compras o bilhete, sentas-te e ninguém te vai criticar. Ninguém vai ficar desconfiado que andas sem bilhete. É nesses pequenos pormenores em que devemos pensar. Como africano, sinto orgulho em fazer o bem, em dar exemplos e em não apelar ao ódio."

O seu desejo é de que haja amor e união entre todos e que a sua música contribua para isso. Não é por acaso que se chama Moreira. Acredita num amor próximo entre África e Portugal. "Se o passado é ódio, eu não o irei buscar. Mas se o passado é amor, então vou sempre lá buscar."
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