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A nutricionista vigiada pela Coca-cola

Mais recente livro de Marion Nestle denuncia como a indústria alimentar corrompe a Ciência.
11 de Novembro de 2018 às 16:54

Por Fernando Madaíl
Académica Marion Nestle andou a ser vigiada, não pelos serviços secretos de qualquer potência, mas por gigantes da indústria alimentar, como a Coca-Cola. A catedrática, que foi diretora do Departamento de Nutrição, Estudos de Alimentação e Saúde Pública na Universidade de Nova York, de 1988 a 2003, podia estranhar que pessoas ligadas à famosa firma fossem tomando notas na sua conferência em Sidney, mas não desconfiava que tudo o que dizia seria transmitido aos principais executivos da multinacional.

A revelação surgiu no meio do material que a WikiLeaks – a plataforma digital que tem divulgado documentos secretos e informações confidenciais de governos e de empresas – difundiu sobre a interferência de piratas informáticos russos na última campanha eleitoral americana. Um dos emails reproduzidos, datado de janeiro de 2016, foi enviado pelo diretor da agência australiana de relações públicas da Coca-Cola para a cúpula da empresa, sediada em Atlanta (EUA). Além das anotações sobre a sua intervenção na Sociedade de Nutrição da Austrália ("muito bem feitas", admite Marion), sugeria a necessidade de se monitorizar as suas palestras, pesquisas científicas e atividade nas redes sociais. O presidente da Coca-Cola South Pacific, Roberto Mercadé, reagindo ao artigo do Sydney Morning Herald com o título ‘Revelado: plano da Coca-Cola para monitorizar académicos’, de 22 de outubro de 2016, negou qualquer projeto secreto da empresa para controlar os universitários.

Não espanta esta especial atenção sobre Marion Nestle depois do livro ‘Soda Politics’ (Política do Refrigerante), de 2015, cuja capa tem a icónica garrafa da Coca-Cola e em que a autora se insurge contra os lucros multimilionários da venda de um produto de baixo custo: quase só água, açúcar e uma substância caramelizada. E onde expõe a forma como a Coca-Cola e a Pepsi-Cola, através dos ‘milagres’ da publicidade, conseguem promover as vendas e quais são os impactos negativos do consumo destes refrigerantes – apresentados como se fossem dieteticamente tão puros como a água potável – na saúde pública. Ainda por cima, adianta como se poderia contrariar esta tendência, através de campanhas para se conseguir um padrão alimentar mais salutar.

Coma, beba e vote

Mas não são apenas estas duas multinacionais a merecerem as suas críticas. Marion Nestle (o apelido não tem quaisquer ligações com Henri Nestlé, um dos fundadores da célebre empresa suíça) escreve livros em que simplifica conceitos complexos de forma a serem entendidos pelo grande público. Numa linguagem acessível, tem abordado problemas como a falta de rigor das entidades oficiais na certificação da qualidade ou os organismos geneticamente modificados, sem negligenciar, por exemplo, o bioterrorismo – após o 11 de Setembro, foi levantada a hipótese de alguém poder envenenar os depósitos de água que abastecem Nova Iorque. A indústria mais lucrativa e poderosa dos EUA consegue que as principais marcas se vendam nas nações industrializadas e nos países subdesenvolvidos e sejam consumidas por adultos e por crianças, enaltecendo qualidades inexistentes – como não terem açúcar, pois um dos problemas da sociedade americana é a obesidade.

Por isso, Marion Nestle afirma que a segurança alimentar não se resume a lavar bem as mãos ou a cozinhar com temperaturas mais elevadas, mas implica, sobretudo, decisões políticas. A universitária sabe como é que os lóbis influenciam as medidas governamentais e procuram impedir toda a legislação que prejudique o seu negócio. Percebe as manobras de bastidores das multinacionais para terem a imagem de que contribuem com doações para organizações de saúde ou instituições sociais – tornando-se, assim, simpáticas perante a maioria das pessoas e quase imunes às críticas.

Os seus livros são redigidos de modo a atraírem qualquer leitor, descrevendo uma visita ao supermercado, "de prateleira a prateleira" – observando o local onde está exposta cada embalagem, as indicações dos rótulos e as referências nutricionais –, ou recorrendo a ilustrações para desmontar os mecanismos da distribuição. Tenta consciencializar a comunidade para esta temática, esclarecendo evidências, como a causa de metade da humanidade passar fome e a outra metade correr o risco de engordar. Afinal, não é por acaso que um dos seus títulos é ‘Eat, Drink, Vote: An Illustrated Guide to Food Politics’ (Coma, Beba, Vote: Um Guia Ilustrado sobre Políticas Alimentares).

Estudos por encomenda

Numa época de abundância, em que se produz o dobro da comida necessária para a população americana, as marcas têm de conseguir criar maior apetência nos potenciais compradores. E adotam estratégias mais subtis (mas bastante eficazes) que as das tabaqueiras ou as do setor farmacêutico. A pura lógica económica não tem preocupações com as doenças do indivíduo nem com a sustentabilidade ambiental.

Marion questiona mesmo certos estudos científicos, publicados em reputadas revistas, sustentando que a indústria corrompe a investigação para manter os seus lucros. No seu mais recente livro, ‘Unsavory Truth – How Food Companies Skew The Science Of What We Eat ‘(A Verdade Desagradável – Como as Empresas Alimentares Distorcem a Ciência do que Comemos), publicado em outubro deste ano, sublinha que muitos dos resultados divulgados são mais marketing do que Ciência, pois são pagos pelas empresas que vendem esses alimentos. E avisa que é preciso desconfiar quando se lê que um chocolate é saudável para o coração, determinado iogurte previne a diabetes ou as amêndoas reduzem o risco da doença coronária. Como explicou numa entrevista ao ‘El Confidencial’, "se um estudo sobre um único alimento apresenta benefícios fabulosos, procure saber quem o financiou".

A sua reputação é tão vincada que o jornalista e ensaísta Michael Pollan, numa seleção para a revista ‘Forbes’, em 2011, dos "sete especialistas em alimentação mais poderosos do mundo", logo após Michelle Obama (a mulher do então Presidente abordou o facto da obesidade infantil se dever à comida fast food), deu o segundo lugar a Marion Nestle, considerando que "é uma voz indispensável sobre os problemas da dieta americana e as suas raízes no marketing industrial e na política do governo". E na recensão de ‘Food Politics – How The Food Industry Influences Nutrition And Health’ (Política Alimentar – Como a Indústria Alimentar Influencia a Nutrição e a Saúde), que até está traduzido em japonês e em chinês, Eric Schlosser (autor de ‘Geração Fast Food’, adaptado ao cinema por Richard Linklater) aconselhava: "Se você come, você deve ler este livro."

Além de uma dezena de obras e da colaboração em documentários cinematográficos, Marion Nestle foi cronista do San Francisco Chronicle, no qual assinou, até 2010, a coluna ‘Food Matters’, e, aos 82 anos – tentando sempre que cada cidadão se torne um consumidor informado, crítico e sensato –, continua a escrever quase todos os dias no Twitter e no blog ‘Food Politics’.

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