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Marquês de Sade: escândalo em figura de gente

Fez do deboche uma arte cénica, mas as vítimas sofriam para lhe dar prazer.
21 de Abril de 2019 às 12:48
Marquês de Sade FOTO: Direitos Reservados
Apóstolo da libertinagem, Donatien Alphonse François, marquês de Sade (1740-1814), foi perseguido por todos os regimes do seu país, a França, desde a monarquia absoluta de Luís XV até ao reinado de Luís XVIII, passando pela Revolução e pelo império de Napoleão. Os seus livros foram catalogados como licenciosos, imorais, pornográficos.

Casou cedo e pouco depois foi preso pela primeira vez, na sequência da queixa de prostitutas contra o que sofriam nas suas orgias. Em 1777 foi encarcerado no castelo de Vincennes, na sequência de uma ordem direta assinada pelo rei, a pedido da sogra do marquês. Seguiram-se 13 anos em sucessivas prisões, incluindo a Bastilha, de onde foi transferido 12 dias antes da célebre tomada (14 de julho de 1789). Libertado em 1790, aderiu com entusiasmo à revolução, tendo incluído em ‘A Filosofia na Alcova’ um manifesto intitulado ‘Franceses, Mais Um Esforço Se Quereis Ser Republicanos’.

Foi eleito presidente da mesma "secção" parisiense a que pertencia Robespierre e fez o elogio fúnebre de Marat, líder revolucionário assassinado. Mas a irreligiosidade valeu-lhe um inimigo poderoso: Robespierre considerava o ateísmo contrarrevolucionário. Sade foi preso durante o Terror e condenado à morte. Escapou à guilhotina graças à queda de Robespierre. Em 1801 fecharam-no no manicómio de Charenton por "demência libertina". Ali encenou peças de teatro, representadas pelos internados no hospício, e continuou a escrever até morrer, em 1814.

Do livro ‘A Filosofia na Alcova’, tradução de Manuel João Gomes, Edições Afrodite
"(...) Eugénia - Mas, querida amiga, quando esse membro enorme, que mal sou capaz de segurar na mão, penetra, como tu dizes poder acontecer, num buraco tão pequeno como o do teu rabo, deve fazer uma grandessíssima dor à mulher.
A Sra. De Saint-Ange – Quer lhe seja metido pela frente, quer lhe seja metido por trás, quando uma mulher não está acostumada, experimenta sempre dor. Aprouve à natureza não nos deixar chegar à felicidade a não ser através de dificuldades; mas, vencida a natureza, nada há que possa dar prazeres como os que se experimentam; e o prazer que se sente com a introdução desse membro nos nossos cus é incontestavelmente preferível à introdução pela frente. E quantos perigos a mulher não evita desse modo! Menos riscos para a saúde e nenhum risco de gravidez. Não me vou alongar agora mais sobre esta volúpia; o nosso mestre comum, Eugénia, breve o analisará amplamente e, juntando a perícia à teoria, há-de convencer-te, minha linda – assim o espero – de que, de todos os prazeres e gozos, é esse o que deves preferir. (…)"

Do livro ‘Os 120 Dias de Sodoma’, tradução de Manuel João Gomes, Edições Arcádia
"(...) ao mesmo tempo que me dizia isto e eu continuava a fazer os movimentos, de tal maneira me meteu as suas mãos, movimentando os dedos com tanta arte que acabei por ser presa do prazer, e é positivamente a ele que devo a minha primeira lição. Com a cabeça já completamente desorientada, deixei o que estava a fazer e, apesar de não estar ainda terminada a operação, o reverendo consentiu em renunciar por momentos ao seu prazer a fim de só se preocupar com o meu; e depois de me ter feito gozar perfeitamente, fez-me retomar a tarefa que o êxtase me obrigara a interromper, intimando-me expressamente a que não me tornasse a distrair e a que me preocupasse agora só com ele. Fi-lo com toda a boa vontade. Era justo: devia-lhe alguma gratidão. Tão bem me comportei e de tal modo cumpri o que me era intimado que o monstro, vencido por tão apertadas sacudidelas, não tardou a vomitar toda a peçonha e cobriu-me com o seu veneno. (…)"

Do livro ‘Os Infortúnios da Virtude’, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, edições Minerva
"(...) Estava muito longe de supor que o homem, à imagem dos animais ferozes, só podia gozar fazendo fremir de pavor os seus parceiros. Foi esse pavor que senti, e em tal grau de violência que as dores do dilaceramento natural da minha virgindade foram as mais insignificantes que tive de suportar naquele turbilhão perigoso, que Antonin terminou com gritos furiosos, com excursões dementadas por todas as partes do meu corpo, com mordeduras tão semelhantes às sangrentas carícias dos tigres que, por momentos, me julguei presa de uma fera que só se apaziguaria devorando-me. Concluídos tais horrores, deixei-me cair sobre o altar onde fora imolada, quase paralisada e sem sentidos. (...)"
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