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Carlos Moedas

Protecionismo: um filme já visto

Sempre que um país impõe uma tarifa num produto os países atacados reagem impondo tarifas noutros produtos.

Carlos Moedas 8 de Junho de 2018 às 00:30
O Presidente Mitterrand costumava dizer que "O nacionalismo é a Guerra" porque traz o pior do ser humano à superfície. O protecionismo é apenas e só uma das faces do nacionalismo que hoje une a extrema-esquerda e a extrema-direita. Hoje a política deixou de se dividir entre esquerda e direita e passou a dividir-se entre protecionistas e internacionalistas.

Os protecionistas sonham com um passado que nunca existiu e os internacionalistas sonham com um futuro que nunca chega.

O anúncio feito na semana passada pelos EUA de impor direitos e taxas às importações europeias de aço e alumínio é para mim uma das decisões mais perigosas para a estabilidade do mundo. Até porque já vimos este filme e não resultou. É bom recordar as razões fundamentais pelas quais o protecionismo nunca funciona:

Primeiro, porque aumenta o custo de vida. Sempre que um país impõe uma tarifa num produto os países atacados reagem impondo tarifas noutros produtos. A consequência é simples, os preços de todos esses produtos aumentam levando a um aumento imediato do custo de vida para as pessoas.

Segundo, porque cria desemprego: Ao impor estas tarifas as empresas que supostamente queremos proteger perdem qualquer incentivo em inovar uma vez que se sentem protegidas pelas próprias tarifas. Sabemos bem que sem inovar não criamos novos produtos e logo não criamos novos empregos.

Antes da 1ª guerra mundial o mundo era mais aberto do que hoje mas também mais desigual. E muitos políticos moderados não souberam combater essa desigualdade. A extrema-esquerda e extrema-direita uniram-se na ideia que o protecionismo era a solução para reduzir a desigualdade. As medidas protecionistas entre as duas guerras mundiais levaram a uma redução do comércio mundial em mais de 20% e uma redução da riqueza mundial de mais de 36%. Essa foi a face económica do protecionismo: mais pobreza e desemprego.

Hoje a extrema-esquerda e a extrema-direita voltam a unir-se nesta mesma visão protecionista do mundo. Vimo-lo no Acordo Comercial com o Canadá e a maneira visceral como ambos lutaram contra este.

E nós os internacionalistas que acreditamos no multilateralismo e no comércio como alavancas de criação de emprego e bem-estar só temos futuro se soubermos proteger as pessoas dos efeitos negativos da globalização. Se não a história repetir-se-á e sabemos bem como acaba.

BASTIDORES
'O novo horizonte da Europa'
Ontem a Comissão europeia aprovou a proposta legislativa mais importante dos meus cinco anos como comissário europeu: o 'Horizonte Europa', o maior programa europeu de Ciência e Inovação para o período de 2021-2027 de mais de 100 mil milhões de €.

Se tivesse de escolher um momento desta minha experiência de vida em Bruxelas em que senti que valeu a pena lutar, este foi o momento. Desta proposta sai um orçamento reforçado para a ciência fundamental europeia (€2,5 mil milhões por ano em bolsas para os melhores investigadores), a criação de um Conselho Europeu da Inovação para apoiar os inovadores europeus (€1,5 mil milhões por ano) e uma duplicação dos fundos para ajudar os países menos de-senvolvidos na área científica a chegarem à primeira divisão da ciência.

Portugal tem vindo a melhorar a cada ano nestes programas competitivos. No programa anterior, arrecadamos 500 milhões de €. No actual Horizonte 2020, em curso até 2020, espero que consigamos chegar aos 1000 milhões de € e no Horizonte Europa espero que Portugal consiga duplicar este montante. Mas isso já não será para mim. Ficando com a paternidade da criação deste novo fundo, será o meu sucessor nesta pasta quem o executará.

Visita da chanceler Angela Merkel
Viu em Portugal o que de melhor se faz na ciência e ino-vação. Uma agenda positiva que só posso subscrever e apoiar o apelo aos governos europeus a terem coragem para investir nesta área. Cinco anos após a última visita, verificou que as reformas resultaram e reconheceu o esforço e sacrifício dos portugueses.

Portugal mais pequeno e mais velho
O Relatório da Comissão Europeia sobre o Envelhecimento faz um retrato preocupante de Portugal em 2070: menos 23% de população (8 milhões) e menos 37% de população com idade para trabalhar (4,2 mi- lhões). Com taxas de natalidade e saldo migratório baixíssimos, são tendências que vão deixar marcas profundas.

78%
...dos portugueses consideram que o nosso país beneficiou com o facto de ser membro da UE. Das prioridades dos portugueses: o combate ao desemprego dos jovens, a proteção social e a economia/crescimento. 46% acreditam que as coisas na UE estão a ir na direção certa. Dados animadores perante os profetas da desgraça.
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